Visão Geral de Segurança

A retatrutida (LY3437943) é um agonista triplo dos receptores GLP-1, GIP e glucagon desenvolvido pela Eli Lilly. O ensaio clínico de fase 2 publicado no New England Journal of Medicine em 2023 por Jastreboff e colaboradores constitui a principal fonte de dados de segurança disponível até o momento, com resultados do programa TRIUMPH (fase 3) ainda em andamento.[1]

O estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo avaliou 338 adultos com obesidade (IMC ≥30 kg/m²) ou sobrepeso (IMC ≥27 kg/m²) com pelo menos uma comorbidade. Os participantes foram distribuídos em sete grupos de dose (0,5 mg a 12 mg em administração subcutânea semanal) ou placebo, ao longo de 48 semanas de tratamento.[1]

No panorama geral, a retatrutida foi bem tolerada em todas as doses testadas. A maioria dos eventos adversos (EAs) foi de intensidade leve a moderada, com predomínio de sintomas gastrointestinais. A incidência de EAs foi claramente dose-dependente: doses mais baixas (0,5–4 mg) apresentaram perfil de segurança muito próximo ao placebo, enquanto doses mais altas (8–12 mg) concentraram a maior parte dos eventos adversos relatados.[1][2]

Nenhum óbito foi registrado durante o estudo. Os eventos adversos graves (SAEs) foram raros e, segundo os investigadores, não estavam claramente relacionados ao fármaco. A taxa global de descontinuação por EAs variou de 2% nas doses mais baixas a aproximadamente 6% na dose de 12 mg — valores comparáveis ou inferiores aos observados com outros agonistas de GLP-1 aprovados.[1]

Contexto do agonismo triplo

Diferentemente da semaglutida (agonista único de GLP-1) e da tirzepatida (agonista duplo GLP-1/GIP), a retatrutida adiciona atividade no receptor de glucagon (GCGR). Essa terceira via metabólica introduz potenciais benefícios — como aumento do gasto energético e oxidação lipídica hepática — mas também levanta questões específicas de segurança que precisam ser monitoradas a longo prazo, como efeitos sobre a glicemia e a função hepática.[1][3]

Efeitos Colaterais Gastrointestinais

Os eventos adversos gastrointestinais (GI) foram a categoria mais frequente em todos os grupos de dose da retatrutida, um padrão consistente com toda a classe de agonistas incretínicos. Esses efeitos são mediados primariamente pela ativação do receptor GLP-1, que retarda o esvaziamento gástrico e modula sinais de saciedade no sistema nervoso central.[1][2]

A tabela abaixo resume a incidência dos principais efeitos GI na dose de 12 mg (a dose com maior eficácia na perda de peso) comparada ao placebo:

Evento Adverso Retatrutida 12 mg Placebo Característica
Náusea ~26% ~6% Mais comum no início da titulação; geralmente leve
Diarreia ~22% ~6% Transitória; sem desidratação significativa relatada
Vômito ~14% ~2% Tipicamente associado à náusea; resolução espontânea
Constipação ~12% ~4% Leve a moderada; manejo com dieta e hidratação
Dispepsia ~10% ~2% Desconforto epigástrico; geralmente autolimitada

Padrão temporal dos sintomas GI

Um aspecto relevante observado no estudo é o caráter transitório desses efeitos. A maior concentração de sintomas GI ocorreu durante as primeiras 4 a 8 semanas de tratamento, coincidindo com o período de escalonamento de dose (titulação). À medida que os participantes atingiam a dose alvo e a mantinham, a incidência e a intensidade dos sintomas diminuíram substancialmente.[1]

Essa adaptação fisiológica é conhecida como taquifilaxia gastrointestinal e é bem documentada em toda a classe de agonistas de GLP-1. O protocolo de titulação gradual — iniciando com doses baixas e aumentando progressivamente — é uma estratégia clínica estabelecida para minimizar esses efeitos durante a fase de adaptação.

A maioria dos participantes que apresentou náusea ou diarreia relatou resolução completa sem necessidade de intervenção farmacológica. Apenas uma minoria necessitou de medicamentos sintomáticos (antieméticos ou antidiarreicos), e muito poucos descontinuaram o estudo exclusivamente por motivos gastrointestinais.[2]

Efeitos Colaterais por Dose

A relação dose-resposta foi um dos achados mais claros do estudo de fase 2. Doses mais altas de retatrutida produziram tanto maior eficácia na redução de peso quanto maior incidência de eventos adversos gastrointestinais. A tabela abaixo apresenta uma visão consolidada dessa relação:[1][2]

Dose Náusea Diarreia Vômito Qualquer EA GI Perda de peso (48 sem.)
Placebo ~6% ~6% ~2% ~16% −2,1%
0,5 mg ~6% ~6% ~4% ~18% −7,2%
1 mg (titulação) ~8% ~8% ~4% ~22% −8,9%
2 mg (titulação) ~10% ~10% ~4% ~26% −12,9%
4 mg (titulação) ~16% ~14% ~8% ~35% −17,5%
8 mg (titulação) ~22% ~18% ~10% ~44% −22,8%
12 mg (titulação) ~26% ~22% ~14% ~49% −24,2%

Interpretação clínica

Esses dados evidenciam que o protocolo de titulação utilizado no estudo desempenhou papel fundamental na tolerabilidade. Todos os grupos de dose mais alta (4–12 mg) passaram por escalonamento gradual, iniciando com doses menores antes de atingir a dose-alvo. Sem esse período de adaptação, é provável que as taxas de efeitos GI tivessem sido significativamente maiores.[1]

É importante notar que a relação entre eficácia e efeitos adversos não é linear. A dose de 4 mg já atingiu redução média de 17,5% no peso corporal com um perfil de eventos adversos moderado, enquanto a dose de 12 mg adicionou aproximadamente 6,7 pontos percentuais de eficácia com aumento proporcional mais expressivo nos efeitos GI. Essa observação pode influenciar a seleção de dose na prática clínica futura.[1]

Nas doses de 0,5–2 mg, o perfil de eventos adversos foi muito próximo ao placebo, sugerindo que a retatrutida em doses baixas é essencialmente bem tolerada, embora com eficácia proporcionalmente menor na redução de peso.

Reações no Local da Injeção

Reações no local da injeção foram relatadas por aproximadamente 5% dos participantes que receberam retatrutida no estudo de fase 2, sem diferença significativa entre os grupos de dose. Esse número é consistente com o observado em outros agonistas incretínicos injetáveis.[1]

As manifestações mais comuns foram:

Nenhum caso de reação no local da injeção levou à descontinuação do estudo. Não foram observados nódulos subcutâneos persistentes, lipodistrofia ou reações alérgicas locais graves. A rotação do local de aplicação (abdômen, coxa e braço) é recomendada como prática padrão para minimizar qualquer irritação local.[1][2]

Em comparação, a tirzepatida apresentou taxas de reações no local da injeção entre 3% e 7% no programa SURMOUNT, enquanto a semaglutida subcutânea registrou entre 3% e 5% nos estudos STEP. O perfil da retatrutida nesse aspecto está alinhado com o da classe farmacológica.[4][5]

Efeitos Cardiovasculares

A segurança cardiovascular é uma área crítica de avaliação para qualquer fármaco antiobesidade, especialmente considerando que pacientes com obesidade apresentam risco elevado de eventos cardiovasculares. Os dados da fase 2 da retatrutida fornecem sinais iniciais importantes, embora ainda preliminares.[1]

Frequência cardíaca

Um aumento médio de 4 a 6 batimentos por minuto (bpm) foi observado nos grupos de dose mais alta (8–12 mg). Esse efeito é um fenômeno de classe bem documentado entre os agonistas de GLP-1, observado também com semaglutida (+2–4 bpm) e tirzepatida (+2–4 bpm). O mecanismo exato não está completamente elucidado, mas acredita-se que envolva a ativação do nódulo sinoatrial mediada pelo receptor GLP-1.[1][3]

O aumento observado com a retatrutida foi discretamente superior ao de outros agonistas de GLP-1, o que pode refletir a contribuição adicional do componente glucagon, que também possui efeitos cronotropos positivos. No entanto, esse aumento permaneceu dentro de faixas clinicamente não significativas e não foi associado a sintomas ou arritmias.

Pressão arterial

Em contraste com o aumento da frequência cardíaca, a pressão arterial sistólica e diastólica diminuiu de forma dose-dependente nos grupos tratados com retatrutida. Esse achado é consistente com os benefícios cardiovasculares da perda de peso e com os efeitos vasodilatadores descritos para agonistas de GLP-1.[1]

Eventos cardiovasculares maiores (MACE)

Não houve sinais de eventos cardiovasculares adversos maiores (MACE) — infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral ou morte cardiovascular — durante as 48 semanas do estudo de fase 2. É importante ressaltar que o estudo não foi desenhado nem dimensionado para detectar diferenças em eventos MACE, que são relativamente raros e requerem estudos maiores e mais longos.[1]

O programa TRIUMPH fase 3 inclui o estudo TRIUMPH-5, especificamente desenhado para avaliar desfechos cardiovasculares da retatrutida em uma população maior e por período mais prolongado. Esses dados serão essenciais para definir o perfil cardiovascular completo do fármaco.[6]

Efeitos Hepáticos

Uma das observações mais notáveis do estudo de fase 2 foi o efeito da retatrutida sobre a gordura hepática. Essa é uma área onde o componente glucagon da retatrutida oferece um benefício diferenciado em relação a agonistas puros de GLP-1 ou duplos GLP-1/GIP.[1][7]

Redução da gordura hepática

Nos participantes avaliados por ressonância magnética, a retatrutida na dose de 12 mg reduziu a gordura hepática em aproximadamente 37% após 48 semanas. Essa redução é clinicamente significativa, especialmente considerando que a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) afeta uma proporção substancial de pacientes com obesidade.[1]

O mecanismo primário dessa redução está na ativação do receptor de glucagon hepático. O glucagon estimula a beta-oxidação de ácidos graxos no fígado, promovendo a utilização dos trigliceridéos intra-hepáticos como substrato energético. Esse efeito é complementado pela redução global de peso corporal e pela melhora na sensibilidade insulínica mediada pelas vias GLP-1 e GIP.[3][7]

Transaminases hepáticas

Os níveis séricos de ALT (alanina aminotransferase) e AST (aspartato aminotransferase) — marcadores padrão de lesão hepatocelular — permaneceram estáveis ou melhoraram nos grupos tratados com retatrutida ao longo das 48 semanas. Não houve sinal de hepatotoxicidade induzida pelo fármaco.[1][2]

Em participantes que apresentavam elevação basal de ALT (frequente em pacientes com DHGNA e obesidade), observou-se tendência de normalização desses valores com o tratamento, refletindo a melhora da esteatose hepática subjacente.

Implicações para MASH e DHGNA

Esses resultados são particularmente relevantes no contexto da esteato-hepatite metabólica associada (MASH, anteriormente NASH). A redução significativa da gordura hepática sugere potencial terapêutico para além da obesidade, posicionando a retatrutida como candidata para estudos específicos em MASH — uma área com grande necessidade clínica não atendida e pouquíssimos tratamentos aprovados até o momento.[7]

Comparação com Outros GLP-1

Uma das questões mais relevantes para pesquisadores e profissionais de saúde é como o perfil de segurança da retatrutida se compara ao de outros agonistas incretínicos já aprovados. Embora comparações diretas (head-to-head) não tenham sido realizadas, a análise dos dados de ensaios clínicos individuais permite uma avaliação comparativa indireta.[1][4][5]

Parâmetro Retatrutida 12 mg Semaglutida 2,4 mg Tirzepatida 15 mg
Mecanismo Triplo (GLP-1/GIP/GCGR) Único (GLP-1) Duplo (GLP-1/GIP)
Náusea ~26% ~44% ~33%
Diarreia ~22% ~30% ~23%
Vômito ~14% ~24% ~12%
Constipação ~12% ~24% ~11%
Descontinuação por EAs ~6% ~7% ~6%
Aumento FC (bpm) +4–6 +2–4 +2–4
Perda de peso máxima ~24% ~17% ~23%
Redução gordura hepática ~37% Dados limitados ~33%
Fonte dos dados Fase 2 (n=338) STEP 1 (n=1.961) SURMOUNT-1 (n=2.539)

Análise da comparação indireta

O achado mais notável é que a retatrutida, apesar de produzir a maior perda de peso entre os três fármacos (~24% vs. ~17% para semaglutida e ~23% para tirzepatida), apresentou taxas de náusea e diarreia consistentemente inferiores às da semaglutida na dose máxima.[1][4][5]

A hipótese predominante para essa observação é que o agonismo triplo distribui a carga metabólica entre três vias receptoras distintas. Em vez de depender exclusivamente da ativação intensa de GLP-1 para atingir a eficácia desejada, a retatrutida recruta simultaneamente as vias GIP e glucagon, potencialmente reduzindo a necessidade de estimulação máxima de cada receptor individual — e, consequentemente, atenuando os efeitos colaterais associados a cada via.[3]

É fundamental destacar que essas comparações são indiretas. Os estudos foram conduzidos em populações diferentes, com desenhos e critérios de inclusão distintos, e o tamanho amostral da fase 2 da retatrutida (n=338) é consideravelmente menor que o dos estudos STEP (n=1.961) e SURMOUNT (n=2.539). Somente ensaios comparativos diretos poderão confirmar ou refutar essas diferenças aparentes.

Interrupção do Tratamento e Eventos Graves

A taxa de descontinuação por eventos adversos é um dos indicadores mais importantes da tolerabilidade real de um fármaco em ensaios clínicos. Na fase 2 da retatrutida, essa taxa foi dose-dependente e, no geral, favorável:[1]

Para contextualizar, a taxa de descontinuação por EAs da semaglutida 2,4 mg no STEP 1 foi de ~7%, e a da tirzepatida 15 mg no SURMOUNT-1 foi de ~6%. Os números da retatrutida estão, portanto, dentro da faixa esperada para a classe.[4][5]

Eventos adversos graves (SAEs)

Eventos adversos graves foram raros em todos os grupos de dose. Segundo os investigadores, nenhum SAE foi considerado definitivamente relacionado ao fármaco. Os SAEs relatados foram clinicamente heterogêneos e consistentes com o esperado em uma população com obesidade e comorbidades associadas.[1]

Pancreatite

Não houve sinal de pancreatite aguda na fase 2 da retatrutida. A pancreatite é uma preocupação teórica com toda a classe de agonistas de GLP-1, embora os dados acumulados de ensaios clínicos e estudos pós-comercialização com semaglutida e tirzepatida sugiram que o risco absoluto é muito baixo. Os níveis de lipase e amilase sérica foram monitorados durante o estudo sem elevações clinicamente significativas.[1][2]

Células C da tireoide

Como todos os agonistas de GLP-1, a retatrutida carrega o aviso de classe sobre tumores de células C da tireoide (carcinoma medular de tireoide). Esse sinal foi observado em roedores, mas não em primatas não humanos ou em humanos após anos de uso clínico de outros agonistas de GLP-1. Na fase 2 da retatrutida, não houve casos de neoplasia tiroidiana. A calcitonina sérica foi monitorada sem alterações relevantes.[1][8]

Apesar disso, o aviso regulatório permanece por precaução, e pacientes com histórico familiar de carcinoma medular de tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2) são tipicamente excluídos dos ensaios clínicos de agonistas de GLP-1.

O Que Esperar da Fase 3

O programa TRIUMPH (fase 3) da Eli Lilly representa a próxima etapa crítica na definição do perfil de segurança da retatrutida. Com milhares de participantes e seguimento mais longo, esses estudos fornecerão dados substancialmente mais robustos do que a fase 2.[6]

Áreas-chave de investigação

Os estudos TRIUMPH abordarão diversas questões de segurança que a fase 2 não pôde responder adequadamente devido ao tamanho amostral e à duração limitados:

Cronograma esperado

Os resultados iniciais do programa TRIUMPH começaram a ser divulgados a partir de 2025, com dados completos dos principais estudos esperados entre 2026 e 2027. A submissão regulatória para aprovação dependerá da totalidade desses resultados. Até lá, os dados de fase 2 permanecem como a melhor evidência disponível sobre o perfil de segurança do fármaco.[6]

Para pesquisadores e profissionais que acompanham esse campo, o registro dos estudos TRIUMPH no ClinicalTrials.gov fornece informações atualizadas sobre o progresso de cada ensaio, incluindo datas estimadas de conclusão e publicação de resultados.[9]